A Prefeitura de Belém, por meio da Coordenadoria Antirracista (Coant), abriu neste sábado, 8, a programação do projeto “Julho das Pretas”, de desenvolvimento das ações que visam marcar o Dia Internacional das Mulheres Afros, Latinas e Caribenhas, que transcorrerá no próximo dia 25 deste mês, na capital paraense.
O evento fortaleceu os debates sobre protagonismo das mulheres no contexto social, econômico e de cuidados com a própria saúde física e emocional. O território quilombola do Sucurijuquara, único na jurisdição do município de Belém com mais de seiscentas pessoas, recebeu o evento.
Cuidado e orientação
Segundo a titular da Coant, Elza Fátima Rodrigues, a ideia em realizar a abertura do “Julho das Pretas” em área quilombola está associado ao fortalecimento, resistência e a identificação dos sentimentos das mulheres do local em relação ao cuidado próprio e do entorno social.
“Elas vão dizer, por meio de uma roda de conversa, quais tipos de cuidados são necessários para que elas continuem desempenhando com resistência o papel de cuidadoras da família, dos filhos, dos maridos, do território, da cultura originária quilombola e nós vamos avançar, a partir desse perfil, na condução de políticas públicas para melhoria do cuidado e do autocuidado dessas mulheres”, explicou Elza Rodrigues.
Além da roda de conversas, a programação levou para a sede da Escola Angelus Nascimento as oficinas de tranças e turbantes. A dona de casa Jéssica Vale da Silva, 32 anos, contou que acordou cedo para participar do evento. Ela estava interessada na oficina de tranças.
Aqui, em Mosqueiro, é difícil encontrar alguém que nos ensine, então, eu quero aprender a ganhar dinheiro, pois fazer um cabelo trançado ou penteado é caro”, contou ela, que ainda estava entusiasmada em se reunir com as vizinhas. “Esses eventos são bons pra gente fazer a socialização, rever as amigas”, completou.
Tradição e identidade
O território quilombola do Sucurijuquara se localiza à margem da rodovia BL-13, de acesso à Baía do Sol. A vida no local ainda mantém tradição. As famílias são conhecidas pelos sobrenomes Vale, Martins, Chaves, Barbosa e Gomes. Os núcleos da escola Angelus Nascimento, Unidade de Saúde e a igreja de Nossa Senhora da Conceição são referências para quem chega ao local.
Segundo a presidente da Associação dos Remanescentes dos Quilombolas do Território da Comunidade do Sucurijuquara, Roberta Vale, as ações da Prefeitura de Belém colaboram diretamente para manutenção das tradições e a identidade do local, assim como sua ancestralidade e o cotidiano.
A cada debate com os técnicos e acadêmicos que participam das rodas de conversa, a comunidade se fortalece ainda mais, segundo Roberta Vale. “Antes de tudo, a própria comunidade precisa entender sua importância e aceitar sua identidade como quilombola, através do nosso cotidiano, que é fabricar sua própria farinha, plantar sua horta, criar suas galinhas, participar ativamente da programação da associação e ainda frequentar nosso campinho de futebol para resenha”, brinca Roberta, que é mestranda em Antropologia pela Universidade Federal do Pará, com ênfase na medicina popular e tradicional de seu território.
ONU Mulher – A assessora da ONU Mulher, em Belém, Virginia Gontijo, esteve pela primeira vez no território quilombola do Sucurijuquara. Ela ressaltou que estava ansiosa, mas feliz em conhecer o avanço do local, a partir do seu reconhecimento oficial como território quilombola.
“É um trabalho desafiador, porque nossa parceria com a Prefeitura de Belém busca construir políticas públicas destinadas ao cuidado com as mulheres, já que a maioria está ligada às tarefas domésticas, educação dos filhos e nós queremos avançar, construir políticas públicas a partir das demandas de acesso a serviços, educação, assistência social e trabalho remunerado”, explicou Gontijo. “Estamos aqui para ouvir as mulheres em roda de conversa”, completou.
Agenda – A programação do projeto “Julho das Pretas” segue com ações que antecedem ao dia 25 deste mês. Segundo Elza Rodrigues, dia 12, haverá uma roda de conversa com mulheres trançadeiras sobre o cuidado delas; e no dia 15, no distrito de Outeiro, sobre ancestralidade africana.
A Coant, segundo Elza Rodrigues, está com a programação para todas as mulheres, como também pode encaminhar de forma institucional as denúncias de casos de racismo.
Rede – A Coordenadoria Antirracista de Belém funciona no Mercado Francisco Bolonha. Sua rede protetiva inclui a Fundação Papa João XXIII (Funpapa), Secretaria Municipal de Administração (Semad), Secretaria Municipal de Educação (Semec) e o Banco do Povo.
“Nossa rede inclusiva é valorosa e muito importante para Belém, uma cidade localizada no coração da Amazônia e que precisa muito divulgar suas ações de fortalecimento feminino”, explica Elza Rodrigues.
Em Mosqueiro, estiverem presentes: Ny Ferro (trançadeira), Angélica Albuquerque (oficina de turbantes), professora Ruth Almeida e Fernanda Rebelato (assessoras da ONU Mulher), professora Antônia Brioso, coordenadora do projeto Cartografia da Cultura Afro Brasileira, da Escola de Aplicação da UFPA, além de Brenda Miranda e Cezar Oliveira (Coant).
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